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terça-feira, 26 de junho de 2018

Fábula "Os Ratos reuniram em conselho"

Há muito tempo... os ratos  reuniram para decidir como se verem livres do gato que andava permanentemente à caça deles. O gato era muito esperto, deslocava-se furtivamente, sem fazer barulho, e quando atacava era mais rápido e mortífero do que um relâmpago.

Vários ratos expuseram as suas ideias e a reunião prolongou-se pela noite fora. Nenhum dos planos parecia resultar, até que um rato novo pediu a palavra.

Proponho - disse ele - que se pendure um guizo ao pescoço do gato. E assim, cada vez que ele se mexer, o guizo tocam e avisa-nos do perigo. Ouvimos o som e temos tempo de fugir.

Os outros ratos acharam uma óptima ideia e foi uma chiadeira de entusiasmo e aplausos. 

Então, um velho rato, que tinha ficado calado todo o tempo, levantou-se e disse com gravidade:

- É uma excelente proposta e tenho a certeza que vai dar resultado. Mas faço uma pergunta...calou-se

O que é? Faça a pergunta - chiaram os outros ratos

Quem - disse o velho rato - vai pendurar o guizo ao pescoço do gato?

Desta vez, nenhum dos ratos teve mais nada a dizer


Moral da história:

É mais fácil ter ideias do que realizá-las!







quinta-feira, 7 de junho de 2018

A verdade e a mentira


"Diz uma parábola judaica que certo dia a mentira e a verdade se encontraram.
A mentira disse para a verdade: 
- Bom dia, dona Verdade.
E a verdade foi conferir se realmente era um bom dia. Olhou para o alto, não viu nuvens de chuva, vários pássaros cantavam e vendo que realmente era um bom dia, respondeu para a mentira:
- Bom dia, dona mentira. 
- Está muito calor hoje, disse a mentira.
E a verdade vendo que a mentira falava a verdade, relaxou. 
A mentira então convidou a verdade para se banhar no rio. Despiu-se de suas vestes, pulou na água e disse:
-Venha dona Verdade, a água está uma delícia. 
E assim que a verdade sem duvidar da mentira tirou suas vestes e mergulhou, a mentira saiu da água e vestiu-se com as roupas da verdade e foi embora.
A verdade por sua vez recusou-se a vestir-se com as vestes da mentira e por não ter do que se envergonhar, saiu nua a caminhar na rua. 
E aos olhos de outras pessoas era mais fácil aceitar a mentira vestida de verdade, do que a verdade nua e crua."




quarta-feira, 30 de maio de 2018

Era uma vez.... um rapaz chamado “Coração”


Toda a gente gostava daquele rapaz. Era tão querido -diziam uns, tão emotivo- diziam outros, mas que ele era um rapaz fraco, lá isso era, deixava-se levar com facilidade e disso todos concordavam.

Coração” era esse o seu nome, vivia uma vida simples, mas cheia de emoções. Não conseguia alhear-se das coisas, vivia-as com uma intensidade demasiado forte. Atraía sempre demasiados problemas, causando-lhe depois grandes sofrimentos.

Era um apaixonado por “Cabeça”, uma rapariga desenvolta e decidida. Ela sentia-se ligada a ele, mas de uma forma mais solta, nunca se sentia apaixonada, todavia não imaginava a vida sem ele.
Ela irritava-se muito por ele agir tão impulsivamente com tudo, já que ela não era nada assim. Ela conseguia pensar e decidir mais friamente como resolver os problemas.

Mas tinham admiração um pelo outro:
Ela invejava a capacidade que ele tinha de se deixar fascinar pelas pequenas subtilezas da natureza, pelas pequenas subtilezas das emoções, pelas pequenas subtilezas da vida.
Ele invejava a forma fria e concisa que ela tinha de encarar e ultrapassar os obstáculos constantes da vida.

Gozavam  momentos de um afeto fácil e de uma proximidade serena, que lhe recordavam constantemente que, embora diferentes, se completavam. E foi então que decidiram casar-se. Ela nunca na vida tinha virado uma página tão depressa, mas dessa vez deixou-se levar pelo Coração.

Todos achavam que não iria dar certo, por serem tão diferentes um do outro. E na verdade era mais o tempo em que pareciam o cão e o gato.

Ele sentia-se sempre em estado de paixão e amor, mas ela era tão racional e tão fria que não conseguia viver  esses sentimentos na sua plenitude.

Passados alguns anos tiverem uma filha a que deram o nome de “Razão”. Uma criança maravilhosa, que se tornou numa jovem sensata e determinada. Ela veio equilibrar a vida de ambos, proporcionando mais emoção à Cabeça e mais sensatez ao Coração.  
A Razão não entendia porque é que o pai se emocionava tanto com tudo:
- Oh Mãe, porque é que o pai chora quando está triste e também quando está alegre?
O pai emociona-se com facilidade, ele é mesmo assim – dizia-lhe a mãe: e nunca te podes esquecer disto:
“O teu pai é assim porque tem razões  que tu própria desconheces”


MD
2016






sexta-feira, 18 de maio de 2018

A humanidade não aprendeu nada com os erros do passado ....


“No decurso da minha vida assisti a incríveis progressos tecnológicos. Quando nasci não era comum ter-se automóvel, mas, quando cheguei aos 40 anos, o homem já havia pisado a lua. Descobrimos curas para doenças, construímos armas nucleares, representámos o nosso ADN, aprendemos a navegar na internet e desenvolvemos remédios e alimentos genéticamente modificados. Pelo menos no Ocidente, a maioria das pessoas tornou-se mais rica do que uma geração como a dos meus avós poderia ter imaginado.  Contudo,  em termos de humanidade, parece que milhares de anos de experiência não implicaram muitos progressos.”



Eva Schloss in “A rapariga de Auschwitz”


sexta-feira, 13 de abril de 2018

A caixinha dos Beijos


“A Inocência e a caixinha dos Beijos”

A Inocência andava muito cabisbaixa ultimamente, nem ela sabia definir o que sentia. As vizinhas diziam-lhe que devia ser “a depressão”. Mas o mal-estar era muito, a tristeza apoderava-se dela e até a sua pele se ressentia. Estava amarelada, seca, faltava-lhe a frescura de antigamente. Devia ir ao médico, diziam-lhe a toda a hora. Mas ela não ía saber explicar o que sentia…só lhe apetecia chorar, mas nem isso conseguia fazer.

Um belo dia encontra no elevador o seu vizinho farmacêutico, que lhe pergunta o que se passa com ela. E depois de ouvir o seu desabafo, diz-lhe para passar pela farmácia que tem um remédio milagroso.

Sem qualquer esperança, mas sabendo que não perde nada, ela passa pela farmácia. O farmacêutico traz-lhe uma caixinha que em nada se parece com medicamento. “Mas o que é isto?” -  Pergunta ela?
“Isto é a caixinha milagrosa, chama-se a caixa dos “Beijos”. “Um beijo” ao deitar e “um beijo” ao levantar vão fazer toda a diferença.

A Inocência, sem grande fé, lá inicia o tratamento ….. E começa a sentir um ligeiro bem estar… adormece lindamente e acorda cheia de vontade de tomar o medicamento.
Aqueles “beijos” começam a dar-lhe ânimo de viver, a sua pele ganha frescura e o seu olhar volta a brilhar.

Sente-se tão bem que resolve ler calmamente a posologia da caixinha dos beijos e fica surpreendida com as indicações e efeitos do medicamento:

Descubra os beneficios dos beijos para o corpo e para o bem estar:
- acalma o stress
- torna os músculos faciais mais fortes
- prolonga a sobrevivência dos órgãos
- faz com que o corpo liberte adrenalina
- diminui a ansiedade
- estimulam o sistema imunológico
- blá blá blá, blá blá blá….

Mas que felicidade, “os beijos” trazerem-na de volta à vida.


Maria Dias
Abril 2013



Escrito para o Boa Noite Beijo




sábado, 24 de março de 2018

Ironia da Idade


Antigamente quando sentia passos atrás de mim, cada vez mais próximos, olhava pelo canto do olho e já sabia que vinha piropo atrás de piropo, sim naquele tempo eram piropos, não eram assédio. Era tímida e corava, ficava sem jeito. Hoje sinto orgulho dessa época.

Mas os tempos mudam e agora quando sinto passos muito próximos, num impulso levo a mão à mala (carteira), para ter a certeza que está bem protegida e que não sou alvo de nenhum carteirista.

Que ironia esta, uma diferença real entre o ontem e o hoje 😊




segunda-feira, 12 de março de 2018

Estou a aprender a não reagir a tudo que me incomoda

Por Rania Naim do Thought Catalog

Eu estou a aprender que não preciso magoar de volta quem me magoou. Às vezes, o sinal máximo de maturidade é virar as costas, ao invés de pagar na mesma moeda. Eu estou a aprender que a energia que eu gasto para reagir a cada coisa ruim que acontece me esgota e me impede de ver o lado bom da vida. Eu estou a aprender que não posso agradar a toda a gente, e isso é bom. Eu estou a aprender que tentar ganhar a afeição de todo mundo é uma perda de tempo e de energia, e que me enche apenas de vazio.
Eu estou a aprender que não reagir não significa que eu estou bem com as coisas, e sim que apenas estou lidando com elas. Eu estou escolhendo tirar isso como lição e aprender com a situação. Estou a escolher ser melhor. Escolhendo a minha paz de espírito porque é o que eu realmente preciso. Não quero mais drama. Não preciso de ninguém a fazer-me sentir que não sou boa o suficiente. Eu não preciso de brigas e discussões. Eu estou a aprender que, de vez em quando, não dizer nada, diz tudo.
Estou a aprender que reagir ao que me faz mal, dá poder para a outra pessoa sobre as minhas emoções. Não posso controlar o que os outros fazem, mas posso controlar como  responder, como  lidar, como  interpretar e quanto disso se leva para o nosso lado pessoal. Estou a aprender que na maior parte do tempo, essas situações não dizem respeito a nós, mas sim ao outro. Estou a aprender que talvez todas as decepções servem simplesmente para me ensinar a me amar, porque esse amor é a armadura e o escudo que eu preciso contra quem me tenta derrubar. É o que me salva quando alguém tenta diminuir a minha confiança ou questionar o meu valor.
Estou a aprender que, mesmo que eu reaja, isso não vai mudar nada, não vai fazer ninguém me amar ou respeitar e não vai magicamente mudar a mente de ninguém. Às vezes, é melhor deixar estar, deixar as pessoas irem, não lutar, não pedir explicações, não procurar respostas e não esperar que alguém entenda a minha história. Estou a aprender que a vida é melhor vivida quando eu não foco no que está acontecendo ao meu redor. e sim quando eu me foco em mim mesma. Trabalhar em mim e na minha paz interior, me faz perceber que não reagir a toda a pequena coisa que me incomoda, é o primeiro ingrediente para viver uma vida feliz e saudável.

Texto originalmente publicado no Thought Catalog, traduzido e adaptado pela Revista Pazes e adaptado por mim.




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Freud explica o Carnaval

Segundo Freud, a nossa mente é como uma casa em que vivem três habitantes. 

No térreo, mora um sujeito simples e meio atucanado, chamado Ego. Ele não é propriamente o dono da casa, mas cabe-lhe pagar a luz, a água, o IPTU, além de varrer o chão, lavar a roupa e cozinhar. Estas tarefas fazendo parte da vida quotidiana, Ego até não se queixaria. O pior é ter de conviver com os outros dois moradores.

No andar superior, decorado em estilo austero, com estátuas de grandes vultos da humanidade e prateleiras cheias de livros sobre leis e moral, vive um irascível senhor, chamado Superego. 

Aposentado – aos pregadores de moral não resta muito a fazer em nosso mundo – Superego dedica todos os esforços a uma única causa: controlar o pobre Ego. Quando liga, se lembra de alguma piada boa e ri, ou quando o Ego se atreve a cantar um sambinha, Superego bate no chão com o ceptro que carrega sempre, exigindo silêncio. Se Ego resolve trazer para casa uma namorada ou mesmo uns amigos, Superego, de sua janela, adverte: não quer festinhas no domicílio.

No porão, sujíssimo, mora o terceiro habitante da casa, um troglodita conhecido como Id.   Id não tem modos, não tem cultura e na verdade mal sabe falar. Em matéria de sexo, porém, tem um apetite invejável. Superego, que detesta estas coisas, exige que o Ego mantenha a inconveniente criatura sempre presa. E é o que acontece durante todo ano.

No Carnaval, porém, Id se solta. Arromba a porta do porão, salta para fora e vai para a folia, arrastando consigo o perplexo Ego que, num primeiro momento, resiste, mas depois acaba aderindo. E aí são três dias de samba, bebida, mulheres.

Quando volta para casa, na quarta-feira, a primeira pessoa que vê Ego é o Superego, olhando-o fixo da janela do andar superior. Ele não precisa dizer nada, Ego sabe que errou. Humilde, enfia-se em casa, abre a porta do porão, para que o saciado Id retorne a seu reduto, e aí começa a penitência, que durará exactamente um ano.

De vez em quando, Ego tem um sonho. Ele sonha que os três fazem parte de um mesmo bloco carnavalesco, e que, juntos, se divertem a valer – o Superego é, inclusive, o folião mais animado. Mas, isto é, naturalmente, sonho.

Autor: Por Moacir Sciliar






quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Solidão a dois

Sobre uma geração que insiste em não ouvir, em não falar e em não aprender

Com sorrisos cada vez mais raros e sem poder de contagiar; com impaciência ao invés de brincadeiras e um torturante silêncio onde deveriam existir palavras e palavras, cada vez mais pessoas vivenciam a solidão a dois, termo que ouvi pela primeira vez na voz de Cazuza, em “Eu queria ter uma bomba”, música do Barão Vermelho.
São olhares vazios, pensamentos dispersos e uma sensação enorme de “tanto faz”. Na mesa do restaurante, o casal insiste em prestar atenção exclusivamente às telas de seus celulares; enquanto caminham, nenhuma palavra sai de seus lábios, e na despedida um beijo frio. No sexo, por não exigir diálogo, as coisas fluem um pouco melhor. Mas ainda assim é insuficiente.
O relacionamento, contudo, é mantido. Talvez por conveniência ou talvez porque essa realidade basta. Existem pessoas que se contentam com o básico e outras que temem a solidão mais do que qualquer outra coisa. Elas não percebem, porém, que estão sozinhas, apesar de terem uma companhia.
Parece contraditório, mas não é. Soa como se as pessoas, com medo da solidão, resolvessem ficar sozinhas juntas. Assim é formada uma multidão de almas vazias, de corações partidos e mentes desencontradas.
Elas se sentem perdidas da mesma forma. Estão a sós com seus pensamentos, embora segurem uma mão. Sonham acordadas, mas preferem não falar sobre isso. Passam horas tentando saber porque aquelas pessoas malucas escrevem poemas e canções.
Ficam inconformadas por aqueles que dizem que até o céu muda de cor quando estão amando. "Porra, o céu é azul. Sempre foi e sempre será", concluem. Mas é mentira. O céu é da cor que querem aqueles que não sentem uma solidão esmagadora, estejam acompanhados ou não.
E assim assistimos relacionamentos começando e terminando dia após dia. Não haveria problema nenhum nisso, afinal, nossa existência é efémera, e somos feitos de dúvidas e erros. O problema é assistir o seu relacionamento começar e acabar e ainda assim não aprender nada de valioso com ele. E sabe por que não? Porque vocês não estavam juntos. Apenas estavam sozinhos no mesmo lugar.

Bruno Inácio




terça-feira, 23 de janeiro de 2018

A triste geração que virou escrava


E a juventude vai escoando entre os dedos.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre.

Tinha pena dos avós, que casaram cedo e nunca viajaram para a Europa.

Tinha pena dos pais, que tiveram que camelar em empreguinhos ingratos e suar muitas camisas para pagar o aluguer, a escola e as viagens em família para pousadas no interior.

Tinha pena de todos os que não falavam inglês fluentemente.

Era uma vez uma geração que crescia quase bilíngue. Depois vinham noções de francês, italiano, espanhol, alemão, mandarim.

Frequentou as melhores escolas.

Entrou nas melhores faculdades.

Passou no processo selectivo dos melhores estágios.

Foram efectivados. Ficaram orgulhosos, com razão.

E veio pós, especialização, mestrado, MBA. Os diplomas foram subindo pelas paredes.


Era uma vez uma geração que aos 20 ganhava o que não precisava. Aos 25 ganhava o que os pais ganharam aos 45. Aos 30 ganhava o que os pais ganharam durante a vida toda. Aos 35 ganhava o que os pais nunca sonharam ganhar.

Ninguém os podia deter. A experiência crescia diariamente, a carreira era meteórica, a conta bancária estava cada dia mais bonita.

O problema era que o auge estava cada vez mais longe. A meta estava cada vez mais distante. Algo como o burro que persegue a cenoura ou o cão que corre atrás do próprio rabo.

O problema era uma nebulosa na qual já não se podia distinguir o que era meta, o que era sonho, o que era gana, o que era ambição, o que era ganância, o que era necessário e o que era vício.


O dinheiro que estava na conta dava para muitas viagens. Dava para visitar aquele amigo querido que estava em Barcelona. Dava para realizar o sonho de conhecer a Tailândia. Dava para voar bem alto.

Mas, sabe como é? Prioridades. Acabavam sempre ficando ao invés de sempre ir.

Essa geração tentava convencer-se de que podia comprar saúde em caixinhas. 

Chegava a acreditar que uma hora de corrida podia mesmo compensar todo o dano que fazia diariamente ao próprio corpo.

Aos 20: ibuprofeno. Aos 25: omeprazol. Aos 30: rivotril. Aos 35: stent.

Uma estranha geração que tomava café para ficar acordada e comprimidos para dormir.

Oscilavam entre o sim e o não. Você dá conta? Sim. Cumpre o prazo? Sim. Chega mais cedo? Sim. Sai mais tarde? Sim. Quer destacar-se na equipa? Sim.

Mas para a vida, costumava ser não:
Aos 20 eles não conseguiram estudar para as provas da faculdade porque o estágio demandava muito.

Aos 25 eles não foram morar fora porque havia uma perspectiva muito boa de promoção na empresa.

Aos 30 eles não foram ao aniversário de um velho amigo porque ficaram até às 2 da manhã no escritório.~

Aos 35 eles não viram o filho andar pela primeira vez. Quando chegavam, ele já tinha dormido, quando saíam ele não tinha acordado.

Às vezes, choravam no carro e, descuidadamente começavam a perguntar-se se a vida dos pais e dos avós tinha sido mesmo tão ruim como parecia.

Por um instante, chegavam a pensar que talvez uma casinha pequena, um carro popular dividido entre o casal e férias num hotel fazenda pudessem fazer algum sentido.

Mas não dava mais tempo. Já eram escravos do câmbio automático, do vinho francês, dos resorts, das imagens, das expectativas da empresa, dos olhares curiosos dos “amigos”.

Era uma vez uma geração que se achava muito livre. Afinal tinha conhecimento, tinha poder, tinha os melhores cargos, tinha dinheiro.

Só não tinha controle do próprio tempo.

Só não via que os dias estavam passando.

Só não percebia que a juventude se estava escoando entre os dedos e que os bónus do final do ano não comprariam os anos de volta.


Texto de Mia Couto





sábado, 6 de janeiro de 2018

A morte não é uma tragédia. Tragédia é quando a gente não viveu.

Não é uma tragédia
Essas coisas acontecem. Um jovem adoece no verão. Um senhor é atropelado por um táxi. A biopsia aponta que o tumor é maligno. Essas coisas acontecem todos os dias. E todos os dias saímos de casa achando que jamais acontecerá connosco. Uma doença leva embora um pai. O médico comunica um exame preocupante. Uma moto atravessa um sinal fechado. Todos os dias isso acontece. E todos os dias nossos planos são os mesmos. Trabalho, almoço, trabalho, jantar.

Não acho que seja uma tragédia quando essas coisas acontecem com a gente. 
Dizemos: “Que tragédia! Morreu tão cedo!". Não acho que seja uma tragédia. 
Acho que a vida é um amontoado de caos e coincidência. Acho que hoje estamos aqui e amanhã não estamos mais. 
Uma tragédia é não agradecer por esse tempinho que estamos aqui. Uma tragédia é não valorizar a vida em família. Uma tragédia é trocar o sorriso do nosso filho pelo celular. Um passeio em família pelas preocupações do trabalho.
Uma tragédia é não abraçar as pessoas hoje. Uma tragédia é passar a vida em branco. Uma tragédia é achar que um dia vamos ser felizes, não hoje. Uma tragédia é achar que não vai acontecer com a gente. E a vida vai ficando para depois. Um dia eu mudo de emprego. Um dia eu digo que gosto dela. Um dia eu faço uma viagem. Um dia eu vou ser voluntário nesse projecto.
Não acho que seja uma tragédia uma jovem cheia de planos descobrir uma doença grave. Acho uma tragédia quando aprendemos a valorizar o que temos só depois de perder. Acho uma tragédia não termos ido ainda para aquela viagem dos nossos sonhos. Acho uma tragédia viver de aparências. Acho uma tragédia ter comprado coisas achando que isso seria felicidade. Acho uma tragédia trabalhar em algo que você odeia. Acho uma tragédia você passar a vida brigado com alguém.

A morte não é uma tragédia. Tragédia é quando a gente não viveu

Marcos Piangers




sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

“Disse a anciã curandeira da alma:
Não doem as costas, doem as cargas. Não doem os olhos, dói a injustiça.
Não dói a cabeça, doem os pensamentos. Não dói a garganta, dói o que não se expressa ou se exprime com raiva.
Não dói o estômago, dói o que a alma não digere. Não dói o fígado, dói a raiva contida. Não dói o coração, dói o amor. E é precisamente ele, o amor mesmo, quem contém o mais poderoso remédio.”
Hermana Águila – Ada Luz Márquez


segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Dia Mundial da Paz



P A Z

A palavra P A Z  significa PERDÃO, AMOR em modo ZEN


Mas quando o modo Zen passa a Zero, a Zanga e a Zaragata, o Perdão e o Amor ficam sem força e sem união e acaba-se a PAZ

Que o Perdão e o Amor se unam para combater a Zanga  e esta palavra possa mesmo alcançar o seu verdadeiro significado.



sábado, 30 de dezembro de 2017

FINAL DE ANO - ANO NOVO


O fim de mais um ano é sempre uma época para fazer balanços e o saldo deste ano foi para mim positivo.

2017 foi um ano muito intenso, com muita coisa a acontecer ....vi muitos sonhos concretizados, -o lançamento do meu livro, muitas alterações boas na vida dos meus filhos, posso até defini-lo  como um “ano de mudança”-.

Só que, como tudo na vida, há sempre um mas, há sempre muitas pedras pelo caminho e o mês de Dezembro foi muito atribulado, impedindo  que o ano terminasse bem.

Mas eu  acredito que tudo se vai resolver... e que 2018 vai ser um ano recheado de coisas boas, sobretudo com a chegada de um grande presente, que aguardo com ansiedade.

Embora seja clichê, mas  de facto o mais importante na vida... SAÚDE, PAZ E AMOR   é o que desejo para todos, porque o resto vem por acréscimo.



sábado, 23 de dezembro de 2017

Natal de 2017

Neste Natal, eu só queria mesmo uma prenda,  podia vir embrulhada ou não,  adornada com um laço de qualquer cor,  se ela chegasse tudo ficaria mais fácil..

Só queria “SAÚDE” em casa, para poder reunir a família à volta da mesa. Talvez, de momento, seja um desejo com asas, mas que não voa...

Apesar do lugar vago à mesa, uma ausência sentida, mas sempre presente no coração, queria tanto poder evocar as recordações mais ternas: o cheirinho gostoso do lar, o aconchego, o carinho, o abraço terno, a partilha e fico a desejar:

“Que em cada um de nós possa nascer ou renascer o poder de amar”

“Que em cada um de nós haja o desejo de partilha”

“Que todas as crianças do mundo tenham o direito a sorrir”






Natal

 Do que gosto do Natal são as boas recordações e magia que me ficaram da infância, da minha e mais tarde dos meus filhos; depois o tempo passou e alguns anos menos bons fizeram-me odiar o Natal; talvez "odiar" seja uma palavra demasiado forte.... Não gosto do consumismo, não gosto do que se faz por obrigação, não gosto das ausências dos que já partiram, não gosto de saber que nem todas as crianças têm o direito a sorrir.... No entanto, não quero perder o gosto das recordações mais ternas, tais como o cheirinho a lar, o aconchego, o carinho, o abraço terno, a partilha, a magia das crianças à minha volta, sentir o amor no ar.





domingo, 3 de dezembro de 2017

Bela carta de José Saramago à sua avó

No ano de 1968, José Saramago publicou no jornal A Capital, de Lisboa, a crónica Carta a Josefa, minha avó. Anos mais tarde, ela seria publicada no livro Deste Mundo e do Outro

Carta para Josefa, minha avó
"Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo - e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água.
Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio ameaçava gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira — sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.
Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de literatura, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com  isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos de rua, aos casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódios por motivos de que já perdeste lembrança, grandes dedicações que assentam em coisa nenhuma. Vives. Para ti, a palavra Vietname é apenas um som bárbaro que não condiz com o teu círculo de légua e meia de raio. Da fome sabes alguma coisa: já viste uma bandeira negra içada na torre da igreja. (Contaste-mo tu, ou terei sonhado que o contavas?)
Transportas contigo o teu pequeno casulo de interesses. E, no entanto, tens os olhos claros e és alegre. O teu riso é como um foguete de cores. Como tu, não vi rir ninguém. Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro. Aperto a tua mão calosa, passo a minha mão pela tua face enrugada e pelos teus cabelos brancos, partidos pelo peso dos carregos — e continuo a não entender. 
Foste bela, dizes, e bem vejo que és inteligente. Por que foi então que te roubaram o mundo? Quem to roubou? Mas disto talvez entenda eu, e dir-te-ia o como, o porquê e o quando se soubesse escolher das minhas inumeráveis palavras as que tu pudesses compreender. Já não vale a pena. O mundo continuará sem ti — e sem mim. Não teremos dito um ao outro o que mais importava. Não teremos, realmente? Eu não te terei dado, porque as minhas palavras não são as tuas, o mundo que te era devido. Fico com esta culpa de que me não acusas — e isso ainda é pior. 
Mas porquê, avó, por que te sentas tu na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e dizes, com a tranquila serenidade dos teus noventa anos e o fogo da tua adolescência nunca perdida: «O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer!»
É isto que eu não entendo - mas a culpa não é tua."



sábado, 2 de dezembro de 2017

Os ocupados

Pena que os "mais ocupados" não tenham tempo para ler este artigo.....

São muitas as desculpas que temos para viver sem tempo e ninguém pára para pensar que esse tempo, que dizemos que não temos, é tempo de vida que perdemos. Se não temos tempo, é porque é tempo de repensar o tempo.


"Vivemos num tempo de aceleração. Tudo se passa a correr e cada vez mais queremos que as coisas sejam rápidas. Arranjamos artefactos que nos permitam ser rápidos, sempre com a desculpa que somos muito ocupados. Cada um de nós se acha o mais ocupado, o mais atarefado (é ou não é verdade?). Se trabalha é porque trabalha, se está em casa é porque está em casa, se tem um filho único é porque tem um filho único, se tem três é porque já são tem três. Se tem um horário é porque tem um horário, se não tem um horário  é porque não há uma rotina. Se vai à ginástica é porque vai à ginástica,se não vai à ginástica é porque nem sequer tem tempo de ir à ginástica.

Enfim, são muitas as desculpas que temos para viver sem tempo. E então, a sociedade acelera para acompanhar os ritmos das pessoas, tornando tudo alucinante e impessoal.  Compra-se tudo feito. Os carros andam rápido. E as coisas, ou estão há distância de um clique ou é já uma “perda de tempo”. Está-se meses sem estar com os amigos. E a desculpa é sempre a mesma: ” Estou muito atarefada” ” Estou exausta” “Ando sempre a correr”.

E ninguém abranda. E ninguém pára para pensar que esse tempo, que dizemos que não temos, é tempo de vida que perdemos.

Vamos vivendo o dia a dia atropelados em tarefas, sempre com o mesmo discurso. 

Mas, se não temos tempo, é porque é tempo de repensar o tempo. De dizer chega, de voltar ao tempo onde nos sentávamos à mesa, nos juntávamos ao fim de semana. Que escrevíamos cartas (ou até mesmo que falávamos ao telefone sem ser para dar um recado mas para saber verdadeiramente do outro).

Temos de perceber que não nos devemos orgulhar de não ter tempo, mas pensar o que podemos fazer para voltar a ter tempo. Porque quando isto chegar ao fim vamos olhar para trás e  dizemos: passou a correr e ouve tanta coisa que eu não vi.

Não aprofundamos relações, não conseguimos ESTAR com o outro. Já ninguém faz um telefonema para dar os parabéns no aniversário de um amigo. Deixa uma mensagem no facebook.

Já ninguém manda um cartão de boas vindas a um bebé acabado de nascer. Faz um gosto no Instagram. Até responder a um mail se tornou complicado “desculpa, não tive tempo de responder…”

O nosso saber também ele está a ficar contaminado com este ritmo pois aquilo que acreditamos é aquilo que nos impingem aqui ou ali, que lemos transversalmente numas letras gordas numa qualquer rede social e torna-se verdade absoluta. Concordamos e, em vez de investigar, partilhamos com o mundo esse tal saber que nos pareceu fazer sentido. E assim se torna uma asneirada viral (ou uma asneirada total).

E assim lá vamos andando nós, muito depressa, desatentos e desfocados sem certezas de nada, mas com a certeza absoluta que somos mesmo muito ocupados."


sábado, 18 de novembro de 2017

O amor não morre.....ele se cansa muitas vezes....


O amor não morre. Ele se cansa muitas vezes. Ele se refugia em algum recanto da alma tentando se esconder do tédio que mata os relacionamentos. Não é preciso confundir fadiga com desamor. O amor ama. Quem ama, ama sempre. O que desaparece é a musicalidade do sentimento. 

A causa? O quotidiano, o fazer as mesmas coisas, o fato de não haver mais mistérios, de não haver mais como surpreender o outro. São as mesmices: mesmos carinhos, mesmas palavras, mesmas horas... o outro já sabe! Falta magia. Falta o inesperado. O fato de não se ter mais nada a conquistar mostra o fim do caminho. Nada mais a fazer. 


Muitas pessoas se acomodam e tentam se concentrar em outras coisas, atividades que muitas vezes não têm nada a ver com relacionamentos. Outras procuram aventuras. Elas querem, a todo custo, se redescobrir vivas; querem reencontrar o que julgam perdido: o prazer da paixão, o susto do coração batendo apressado diante de alguém, o sono perdido em sonhos intermináveis e desejos infindos. Não é possível uma vida sem amor. Ou com amor adormecido.

Se você ama alguém, desperte o amor que dorme! Uma vez ou outra, faça algo extraordinário. Faça loucuras, compre flores, ofereça um jantar, ponha um novo perfume... 

Não permita que o amor durma enquanto você está acordado sem saber o que fazer da vida. Reconquiste! Acredite: reconquistar é uma tarefa muito mais árdua do que conquistar, pois vai exigir um esforço muito maior. Mas... sabe de uma coisa? Vale a pena! Vale muito a pena!

Pedro Bial


segunda-feira, 31 de julho de 2017


No outro dia, uma jovem jovem perguntou-me: " o que sentes em ser velha?

Fiquei surpreendida com a pergunta, já que nunca me senti velha. Quando a rapariga viu a minha reacção, ela pediu-me desculpa, mas expliquei-lhe que era uma pergunta interessante. 
E depois pensei, pensei que envelhecer é um presente.
Às vezes, surpreende-me a pessoa que vejo no meu espelho. Mas não me preocupo com ela há muito tempo. Eu não mudaria nada do que eu tenho para algumas rugas em menos e uma barriga plana. Não me crítica mais porque não gosto de arrumar a cama, ou porque não como algumas " coisas. 

Sinto-me finalmente no meu direito de ser desordenada, extravagante e passar as minhas horas contemplando as flores.

Eu vi alguns queridos amigos sair deste mundo, antes de desfrutar da liberdade que vem com o envelhecimento.

Quem se importa se eu optar por ler ou jogar no computador até às 4 da manhã e depois dormir até quem sabe que agora?

Quem se importa se eu dançar sozinha ouvindo a música dos anos 50?

E se depois eu quiser chorar por um amor perdido?

E se eu andar na praia de roupa de banho, levar a passear meu corpo gordinho e me mergulhar entre as ondas deixando-me embalar, apesar dos olhares daqueles que ainda usam o biquíni, serão velhos também se tiverem sorte.

É verdade que através dos anos o meu coração sofreu pela perda de uma pessoa querida, mas é o sofrimento que nos dá força e nos faz crescer. 

Um coração que não se partiu, é estéril e nunca vai saber da felicidade de ser imperfeito. 

Estou orgulhosa de ter vivido o suficiente para fazer branquear o meu cabelo e para manter o sorriso da minha juventude, de quando ainda não havia sulcos profundos no meu rosto.

Ora, para responder à pergunta com sinceridade, posso dizer:
Eu gosto de ser velha, porque a velhice me faz mais sábia, mais livre!

Eu sei que não vou viver para sempre, mas enquanto estou aqui, quero viver de acordo com as minhas leis, as do meu coração. Não quero reclamar pelo que não foi, nem me preocupar com o que será. No tempo que resta, simplesmente amarei a vida como fiz até hoje, o resto eu deixo a Deus.

Sandra Benedita