quinta-feira, 10 de maio de 2012


Mas ela teve aquilo a que se pode chamar um momento de clarividência. Foi mais doloroso, mais revelador do que tudo o que tinha experimentado antes ou viria a experimentar. A dor foi tão profunda que preferiria uma dor fisica forte e feia.
Um filho ama-se incondicionalmente, mas quase sempre se vê um filho, como nós gostariamos que ele fosse e não como ele é na realidade. E quando se descobre que ele não é como nós idealizámos, o sofrimento é tão grande, que dói para além de tudo o que se possa imaginar e suportar.

A dor dela doía-lhe e dilacerava-a. Despiu os seus pensamentos das palavas e como o seu coração transbordava de sofrimento, os seus olhos pareciam um rio. O ar estava pesado de humidade, tão pesado que os peixes poderiam nadar nele.

Ela olhou em seu redor, sem se mexer, girando apenas as pupilas, os olhos fecharam-se e viajou rumo ao céu caindo num sonho…..

E viu o filho….aquele filho que tanto a fazia sofrer….viu-o caminhando pelo monte, pedalando pelo monte acima, tinha a cor corada, uma tez brilhante e sorria….. lá em cima no monte esteve parado uns instantes olhando o horizonte…. E quando já pedalava pelo monte abaixo, conseguia meter o vento dentro da camisa e trazia um semblante feliz.

Ela acordou e quis acreditar que finalmente ele tinha encontrado o seu rumo e isso era o que contava agora.




Maria Dias
Maio 2012

terça-feira, 8 de maio de 2012


A inocência é uma criança
De mãos abertas para o mundo,
Com olhar de esperança
E com um amor profundo.

É a doçura na relação humana
Falar sem pensar, amar sem restrição,
É fruto da inocência que dela emana,
É possuir um mundo de imaginação.

Na inocência de uma criança
Há  tanta esperança a nascer,
Tanto carinho e confiança,
Vontade e razão de viver.

Pleno mar de ternura
Olhos cheios de candura
De uma inocência sem fim,
Ah como sinto saudades
Daquela criança em mim!


Maria Dias
Maio 2012

segunda-feira, 7 de maio de 2012


Viajar

Quero ir por caminhos diferentes
Vaguear entre  outras culturas,
Que abram as nossas mentes,
E de coração aberto
Outros povos abraçar,
De longe e de perto
Outras paisagens observar.

Quero abrir os olhos para o mundo
Chegando de longe, com o coração a cantar
Ficar boquiaberta, em extâse profundo
Com tantas belezas de encantar.

Quando voltar quero  viajar
Para dentro de mim mesma,
Prolongar tudo o que vivi
Guardar tudo o que senti,
E através da minha memória,
Em lembrança e narrativa
Escrever a minha história!

E continuar a minha viagem
Nem que seja em pensamento.
É preciso recomeçá-la …
Ir para além de uma miragem,
Pois pior que não a terminar
É nunca chegar a partir,
E querer sempre ir
Querer sempre continuar…..


Maria Dias
Maio 2012

domingo, 6 de maio de 2012


Mãe
O passado vai-se apagando


Não sei se ocorrerá comigo
Um dia perder os sentidos,
Como se passa contigo,
Que já esqueces os tempos idos…..
Por isso,  passeio por minha memória,
ainda intacta,
E antes que ela se apague,
Quero escrever  a minha história.

Se tu te esqueceres do meu nome
Não me zango contigo, e vou-me lembrar
De ter paciência, dar-te apenas carinho
Tu não tens culpa da mente se apagar.

Fizestes amigos nessa vida corrida
Guardaste lembranças num arquivo,
E hoje…esse arquivo  contaminado
Perde detalhes de uma vida vivida,
Impossiveis de recuperar
Fazendo esquecer todo um passado.

Eu sei que jamais recuperarás a tua auto-estima,
A sombra da noite vai cair como densa cortina
Cegará não apenas a tua visão…
Levará muito mais: A nossa doce ilusão.

Não terás controle sobre teus pensamentos,
Agora eu sei que será um tormento….
Não reterás por mais que breves segundos…
E mergulharás no esquecimento.

Quando tudo isso acontecer já terás partido
Recordarei por ti, e de ti não me vou esquecer
Pois essa mulher que em tempos dizia
Eu amo-te,
Partirá deste mundo sem saber.

E quando esse dia chegar…
Quando tu me perguntares
Quem és tu?
Eu apenas vou sorrir
E te vou abraçar,
Porque tu és minha mãe,
E mesmo que te esqueças,
Eu  sempre te vou amar!

sábado, 5 de maio de 2012


As duas irmãs estavam sempre a inventar brincadeiras. A Maria era a mais velha e era quem organizava essas coisas. Ou era a professora e diante de uma plateia de bonecas todas sentadas umas atrás das outras, ficando a Joana (a irmã mais nova) sentada à frente, prontas para ouvir as explicações em Francês. Sim a Maria era a professora de Francês. Outras vezes brincavam aos escritórios, outras aos espectáculos e era uma roda viva, um abre e fecha naqueles cortinados que faziam de palco… que tempos imaginários aqueles…

Mas naquele dia, não havia brincadeira, elas estavam inquietas, pressentiam algo. Na  verdade quando o pai chegou a casa, trazia um sorriso estampado na cara, como se estivesse ansioso por revelar alguma coisa agradável e ao mesmo tempo quisesse prolongar o mistério por mais tempo. A sua postura era a de um homem desejoso de fazer as filhas felizes.

E foi então que, de mãos atrás das costas,  perguntou a ambas, qual a mão que queriam escolher, a esquerda ou a direita….elas gritavam ao mesmo tempo, esquerda, direita, enquanto saltitavam à volta do pai, na expectativa do que iria acontecer.

Escolhida a mão, o pai mostrou-a vazia. Elas pararam de saltitar e os rostos sorridentes transformaram-se, como um final de tarde em que o Sol dá lugar à noite fria. Só voltaram a sorrir quando o pai disse que aquela mão correspondia ao bolso do casaco, e sugeriu que espreitassem lá dentro.

Foi tal a surpresa, o entusiasmo, a gritaria quando tiraram do bolso  uma cadelinha tão pequenina, tão linda, quase a matavam de tanto apertar e de tanto a querer mimar…

Aquele dia ficou para sempre na memória da Maria e da Joana.

Maria Dias
Maio 2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012



As noites inundadas de ócio, são limpidas,
E quando as palavras fogem do pensamento,
Fica apenas a  lembrança de vidas vividas,
Fica o sonho e o silêncio daquele momento.

Expectativas e sonhos de olhos abertos,
Imagens e sonhos de olhos fechados,
Desejos e ilusões de futuros incertos,
Pensamentos e recordações de passados.

O mundo esse, fica fechado lá fora
E nós fechados em nós, no nosso mundo,
Não queremos sair daqui, ir  embora,
Ficamos quietos num silêncio profundo.

Maria Dias
Maio 2012

A Supresa

A Anita chegou a correr, com as faces coradas…o travessão que lhe prendia parte do cabelo parecia estar a perder a firmeza, e várias madeixas castanhas tombaram-lhe para a frente dos olhos, sem que ela parecesse reparar, conferindo-lhe um ar afogueado. A mãe ajeitou-lhe o cabelo e fê-la acalmar para lhe dizer que tinha uma surpresa. A Anita adorava surpresas…. “a surpresinha” como ela dizia…e começou logo  a imaginar, se seria um boneco, ou melhor, uma boneca, de preferência com cabelo comprido para a pentear e….. a sua cabecita não parava…já que não tinha nenhum irmão, com as outras meninas, uma boneca seria agora uma boa surpresa. E continuava irrequieta….Mas onde está  “a surpresinha” mãe? Não vejo nenhum embrulho….

A mãe pediu que se acalmasse e escutasse com atenção…não tinha nenhum embrulho porque “a surpresinha” não era para agora, só daqui a alguns meses. E aí os olhos da Anita perderam o brilho e entristeceram…afinal não ia ter a boneca para pentear…o sorriso deu lugar a um beicinho …e encostando-se à mãe para que esta a abraçasse e confortasse, esqueceu que a mãe ainda não lhe tinha dito qual era a surpresa….

E então a mãe disse que dentro de alguns meses iria ter um irmão ou uma irmã. A Anita deu um salto e ficou tão feliz que esqueceu tudo o resto. A partir daquele momento não parou de fazer perguntas e tal era o entusiasmo que nunca mais falou na boneca.

Maria Dias
Maio 2012