sexta-feira, 12 de julho de 2019


"A infância não é um tempo, não é uma idade, uma colecção de memórias. A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar. Quase tudo se adquire nesse tempo em que aprendemos o próprio sentimento do Tempo."


Mia Couto




terça-feira, 9 de julho de 2019

Saudade é....


Saudade é amor que permanece
é aperto e às vezes até dor
é querer ter o que não se esquece
é o que fica em nós do amor

Saudade não tem cor nem tamanho
é um vazio onde só cabe a lembrança
é um sentimento tão estranho
o seu maior conforto é a esperança

É a luz que ilumina a estrada do passado
eternizando a presença de quem já partiu
é carinho e amor a ser lembrado
a recordar uma vida que já existiu

A casa da saudade chama-se Memória
é uma cabana singela na rua do coração
mas nela cabe toda a nossa história
nem pensar em perdê-la, isso é que não



 In "Abraço-te"


M D
Fevereiro 2015






Saudade




O céu abriu-se e martelou a terra, bombardeando um tapete de poças silenciosas, como a memória bombardeia mentes silenciosas. A erva parecia satisfeita no seu verde húmido. A chuva começou a bater nas vidraças e o vento a assobiar com ritmo. Ela permaneceu sentada a olhar o vazio, as lágrimas embaciavam-lhe os óculos e tremiam-lhe no queixo como gotas de chuva no beiral. Aquela dor doía-lhe bem fundo. O rosto parecia pedra, mas as lágrimas continuavam a rolar pelas faces rígidas. O seu coração transbordava de “saudade”, uma saudade sem resposta e por isso se transformava num pequeno rio a brotar dos seus olhos.

De súbito, bateram à porta e ela ficou alguns segundos sem se mexer, sentia-se tão rígida que nem sabia se era capaz de se levantar. Voltaram a bater e então ela deu um salto e arrastou-se finalmente.

Com uma carta na mão, tremia dos pés à cabeça, hesitante entre abri-la ou se sentar primeiro. E assim demorou mais uns minutos, trémula de hesitação, amedrontada pela expectativa do seu conteúdo. Sentou-se primeiro, acomodou-se, ajeitou os óculos, suspirou ….Entretanto a chuva parou, o vento amainou e os olhos dela secaram, na esperança de voltarem a sorrir.

Aquela carta, já aberta, tremia-lhe nas mãos, tanto que, nem conseguia ler direito e só quando os seus olhos pararam naquela linha mais curta que as restantes, naquelas duas pequenas palavras, ela conseguiu continuar a ler.

Lá fora a chuva tinha parado e até o Sol voltava a espreitar de encontro à janela. O seu rosto já não estava rígido, porque dos seus lábios surgia agora um sorriso; já conseguia ler tudo, mas o seu olhar ficava parado e deliciado apenas naquelas palavras mágicas: Amo-te mãe!



In "Abraço-te" 

Maria Dias
Maio 2012





segunda-feira, 8 de julho de 2019

Os baixinhos chegam onde chegam os grandes, será mesmo assim?


Sou baixinha pois sou e então? Os meus pais perderam muito tempo com alguns detalhes e a pôr tudo no lugar e depois esqueceram-se de acrescentar o fermento. Só pode ter sido isso.

Quando somos mais novas não tem importância, sempre a ouvir: ah e tal  é mesmo uma boneca, tão gira.... depois,  o tempo passa e esses comentários escasseiam, até desaparecerem por completo..... 

Mas os baixinhos chegam  sempre onde chegam os grandes;  sim claro, se tiverem um banquinho por perto, senão estão tramados..... 

Ah pois é, estão mesmo tramados, se vão a um concerto ou a qualquer espectáculo, ou ficam na frente ou então passam o tempo todo aos saltinhos ou a pôr a cabeça ora para a esquerda, ora para a direita, num desassossego enervante, que provoca comichões e até chegam a pensar “mais valia ter ficado em casa”

Se engordam mais um pouco, ficam umas bolas, se ficam muito magros,  são uns enfezados; -não que me possa queixar porque estou entre os dois -, mas sempre a pensar, se um dia engordo muito, lá viro eu uma bolinha, se fosse alta talvez ficasse um mulherão.

Se um homem alto anda com uma mulher baixa, até que disfarça, mas se for ao contrário lá vêm as piadas, algumas até grosseiras....

Bom o facto é que os homens não se medem aos palmos, medem-se em centímetros e as mulheres arranjam alguns  extras nos saltos, agora os homens ficam mesmo em desvantagem.


Mas não me importo, porque, tal como dizia o poeta Fernando Pessoa, eu “sou do tamanho do que vejo”.....





In "A Saga dos Baixinhos"


M D
Junho 2017



sábado, 6 de julho de 2019

Sou pequena



Sou pequena pois sou...
e,  às vezes sinto-me tão pequenina
perante a imensidão do mar
perante o deslumbramento da natureza,
outras vezes,  sinto-me grande
do tamanho daquilo que vejo
do tamanho do mundo
como se pudesse abraçá-lo
e de todo alcançá-lo...







quinta-feira, 4 de julho de 2019

Um dia...serei estrela


Um dia ....
serei estrela na vida de alguém
tal como uma estrela errante
a observar a terra lá do além
mas muito  mais brilhante

Um dia....
a minha luz e o meu brilho
reflectirá a minha ausência
e seguindo o vosso trilho
sentirão a minha presença

Um dia
iluminarei os vossos caminhos
sendo a vossa companhia
vos darei os meus carinhos
transmitindo sempre alegria



MD
Jul 2019



quarta-feira, 3 de julho de 2019

Lágrima de Preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

ANTÓNIO GEDEÃO, in LÁGRIMA DE PRETA
(A Voz de Moçambique, 1964)