quinta-feira, 2 de agosto de 2012


A assombração

Ela nunca tinha recuperado da sua ausência. Mesmo depois de saber que ele nunca mais voltaria. As noticias finais da sua morte tinham-na deixado prostrada e mesmo incrédula entregara-se ao luto, sofrendo muito, mas lentamente, como se nunca mais quisesse acordar para a vida.
Estava a deslizar para fora do tempo. As delimitações que observava no espaço de uma vida, perdiam subitamente o significado: segundos, minutos, horas, dias. Meras palavras, tudo o que queria ter, eram momentos como no passado, e esses já nem sequer lhe pertenciam.
Tinham sido tão felizes naquela quinta, naquela casa, aninhada a um canto do prado. Este estava cercado de bosques de cerejeiras bravas, bordos e carvalhos.
Mergulhada nos seus pensamentos, ouviu uma rajada de vento que levantou um redomoionho de folhas secas, que esvoaçaram pelo pátio emitindo um som de uma vassoura de plumas; algumas delas rasparam ao de leve contra as vidraças. Mas logo acalmou. O vento deu lugar a uma suave brisa, convidativa a um passeio.
Ela saiu e ficou a observar o Sol a pôr-se sobre o descampado. Gostava de sguir-lhe o rasto enquanto deslizava por entre o arvoredo.
O mundo há anos fechado lá fora, chamava-a de súbito para continuar a caminhar.
Quase na saída da quinta começou a ficar uma neblina dificultando a visão para a estrada. Resolveu voltar. Mas quando ía virar algo estranho aconteceu. Pareceu-lhe ver um vulto, mais parecendo uma assombração.
Deveria estar alucinada e quis apressar o passo, mas ao mesmo tempo sentia-se paralisada pela indecisão entre voltar e ficar, sem saber porque estava ali parada, com as mãos enterradas nos bolsos do casaco.
Tremia a pensar que não devia ter saído a uma distância tão grande e já ao entardecer. Mas o vulto aproximava-se lentamente… era um homem que caminhava num andar lento e trôpego.
Ela susteve a respiração à espera que ele se aproximasse, que ele falasse, decorreu um momento longo, durante o qual imaginou tudo menos o que viu e escutou.
- Laura sou eu. Já não me reconheces?
Mas ela já tinha desmaiado e foi ele, mesmo fraco, que  teve de a amparar para chegarem a casa.
Como era possível estar a olhar para o Rodrigo, que sabia estar morto e que nunca mais voltaria daquela maldita comissão.
Mas era verdade. O Rodrigo não tinha morrido, a carta que recebera há alguns anos tinha sido um engano.
Ela ainda estava em choque. E só aos poucos recuperava para a realidade.
Lembrava-se, em tempos, que lhe dissera que há um ponto em todas as histórias, a partir do qual, é impossível voltar atrás...Mas desta vez chegou mesmo a um ponto possível de voltar atrás, e de recuperar a felicidade perdida.


Maria Dias
Agosto 2012


segunda-feira, 30 de julho de 2012


Soneto


A minha amiga paciência
Veio para me ajudar,
Instalou-se numa dormência
Pedi-lhe para comigo ficar.

Quero que me ajudes a manter
O meu equilibrio emocional,
Que não me faças esquecer
De buscar uma calma adicional.

Sei que tens a arte da esperança,
Ultrapassas as dificuldades,
És um porto seguro, meu abrigo,

Com a tua calma e perseverança
Amiga de todas as verdades,
Só me fazes querer ficar contigo!


Maria Dias
Julho 2012


sábado, 28 de julho de 2012


O mistério

As palavras daquela canção explodiram-lhe na cabeça. Algo se agitou dentro de si, fechou os olhos e lembrou-se dela….onde andaria? Porque teria partido sem nada dizer?  Encostada à porta, sentiu o sonho, ou melhor um pesadelo, agitar-se dentro de si  como um friso de água surgindo do oceano, avolumando-se numa onda. Nunca iria compreender porque a sua irmã tinha partido sem uma explicação. Deixou que o seu pensamento divagasse por entre as recordações que aquela canção arrebatara aos lugares recônditos da sua memória. Como tinham sido felizes e inseparáveis enquanto crianças, adolescentes e mais tarde mulheres, por isso não entendia o que se tinha passado.

Divagando entre os pensamentos, de repente apercebeu-se que canção acabara e o silêncio profundo tinha-se instalado naquela casa e foi quando lhe pareceu ouvir um barulho vindo do exterior. Parecia-lhe um  gemido, talvez fosse um animal ferido.

Abriu  a  porta  para  ver o que se  passava e  foi  quando  ouviu  um  choro de  um  recém-  -nascido. Deu a volta à casa, e nas traseiras deparou-se com  uma alcofa. As pernas tremíam-lhe e aquela sensação de ansiedade e de temor, fê-la parar, hesitante em avançar.

Mas entretanto decidiu-se. Deparou-se com um bébé que choramingava, tentou pegar-lhe e o choro transformou-se num sorriso. Um sorriso que lhe parecia familiar. Pegou na alcofa e levou para dentro de casa, ainda com as pernas a tremer, parecendo-lhe estar a viver uma cena de um filme.

Não estava a perceber o que estava a acontecer e foi então que reparou num envelope que estava dentro da alcofa. Uma carta, reconheceu a letra de imediato.

Começou a lê-la, as mãos trémulas, os olhos a começarem a embaciar-se, como o horizonte se embacia numa demorada penumbra. Mas os olhos acordam prostrados e contagiam o resto do corpo.

Tem que se sentar para continuar… começa a perceber que aquela criança é sua sobrinha, mas a razão de estar ali não entende…. Continua a leitura, mas com dificuldade, a carta começa a ficar molhada e as letras a sumirem… Não percebia bem aquilo que estava a ler. Parecera-lhe profundo, embora essa profundidade fosse turva e ela nada conseguisse ver nela…

Porque seria que a irmã lhe entregara a filha sem nunca lhe ter contado nada sobre a sua existência? Elas que sempre foram tão unidas como foi capaz de lhe esconder uma coisa tão importante? E agora deixá-la com tanta responsabilidade?

Tinha que concluir a carta para perceber. Finalmente entendeu. A irmã estava doente, isolou-se, teve aquela filha que agora sabia não poder educar. Não conseguiu encarar a irmã, mas sabia de antemão que ela não lhe viraria as costas e que tomaria conta da Carolina.

Os seus sentimentos não precisavam de motivos, nem os desejos de razão, pensou que tinha que atender o pedido da irmã.

Aliás, esta criança continuaria a ligá-las para sempre!


Maria Dias
Julho 2012

quarta-feira, 25 de julho de 2012


São almas gémeas,
Juntos se movem
Juntos choram
Juntos dormem
Juntos piscam
Juntos vêm as coisas
Ainda que
nunca se vejam…
São os meus olhos
São almas gémeas!

Maria Dias
Julho 2012

A familia é a base da sociedade,
Paz e harmonia a verdadeira riqueza
Que nos oferece a familia de verdade,
A união e o amor que nos dá a certeza
De nos sentirmos acolhidos,
Amados,
Acarinhados,
De nos sentirmos unidos!

Maria Dias
Julho 2012

terça-feira, 24 de julho de 2012


84 anos. Parabéns Pai!


Pai
Que te amo, tu já há muito que sabes…
Mas não sei se alguma vez te disse
Que o meu sentimento por ti
Vai mais além,
Se não o transmiti,
Então agora é o momento
De te dizer
Que te admiro muito,
Podes crer…
Pela tua personalidade,
Pela tua força, coragem,
Por enfrentares a realidade
Por seres o pilar da mãe
Nesta fase da verdade
Superando assim o que ela tem.
Obrigada Pai por seres assim!



Maria Dias
19.Março.2012


sábado, 14 de julho de 2012


A Amizade

Pudera eu ter o dom de um poeta
Ou de um músico…
Para poder colocar em verso e melodia
O sentimento da amizade…
Ah como eu gostava, como eu queria
Poder defini-lo e transcrevê-lo
Esse sentimento da verdade.

A amizade é um sentimento
Tão único e especial,
Troca, amor, cumplicidade
É afeto, é respeito, é vital,
É carinho e honestidade.

A amizade duplica a alegria
E divide as tristezas,
É uma completa melodia
Que diminui as distâncias
Fortalece as certezas
E utrapassa todas as ânsias…

A amizade, sim, a amizade
É uma troca repartida
De uma cumplicidade,
É a doce canção da vida
É a poesia da eternidade!


Maria Dias
Julho 2012