quarta-feira, 8 de outubro de 2014


Ela fechou os olhos, inclinou o rosto em direcção ao céu e deixou que a brisa marítima lhe fizesse cócegas nas pálpebras…gaivotas a conversar mais ao longe na praia, um insecto que passou junto ao seu ouvido, ondas suaves que batiam ritmadamente na praia. Foi avassalada por uma enorme sensação de serenidade ao fazer corresponder a respiração com o ritmo do mar. A chuva recente remexera a água salgada e o odor intenso misturava-se no vento.
Abriu os olhos e contemplou a paisagem com lentidão, achou maravilhoso, sentiu invadir-se por uma alegria imensa e pensou: “É isto o que os pássaros devem sentir quando voam por cima da praia”. Aquela alegria era como uma brisa suave. Um sentimento tão intenso e ao mesmo tempo tão simples.
Questionou-se sobre o porquê de complicarmos as coisas. Quis entender o porquê dos nossos olhos se gastarem no dia-a-dia, parecendo por vezes opacos, e quando isso acontece instala-se no nosso coração o monstro da indiferença.

Mas que ironia esta, a de tanto querermos e acabarmos por esquecer as coisas mais simples da vida, tão simples como a natureza, que se nos oferece simplesmente ao nosso olhar, para que dela desfrutemos e nos possamos sentir cheios de alegria por viver!

Maria Dias


Óleo s/Tela

domingo, 28 de setembro de 2014

Para o Boletim da Arpic de Outubro envio:


O CANTINHO DA POESIA, PENSAMENTOS,  CONTOS E OUTROS…..

Outubro, nova estação a começar, o Outono mostra a natureza a envelhecer, para mais tarde renascer. Mas no homem, as estações da vida têm um fim. Porém, uma vida pode renascer quando se abre o coração para o mundo…




A Confissão

Sara era uma criança alegre e com a cabeça sempre cheia de fantasias. Tinha um companheiro o Alex, um cão dócil e brincalhão, sempre pronto a acompanhá-la nas suas loucuras. Eram inseparáveis, quer nos momentos mais agitados, quer nos momentos calmos. É que Sara gostava de se sentar ao lado do Alex, e ao mesmo tempo que lhe fazia festas, apreciava a paisagem e deixava os pensamentos fluírem. 
Às vezes, aliás a maior parte das vezes, uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos mais atentos e limpos para o espectáculo do mundo.
A Sara vivia com os pais e a avó numa robusta casa de quinta, aninhada a um canto do prado, sendo a casa mais próxima a de uma mulher de meia-idade que vivia sozinha.
A casa era uma espécie de miradouro para uma longa paisagem de montanha, abrindo verdes perante a passarada que voava irrequieta por ali.
A vista era deslumbrante e por isso Sara passava horas sentada ao lado do seu fiel amigo, apreciando aquele quadro vivo e colorido, que lhe despertava a imaginação, dando-lhe asas, e só Alex a compreendia. Respeitava o seu silêncio, parecendo também contemplar a imensidão daqueles campos.
A vizinha de Sara era uma mulher amarga, solitária. Apenas trocava algumas palavras com a avó da Sara quando se cruzavam, palavras de ocasião ou cortesia, nada mais. Todos estranhavam a solidão daquela mulher, nem sequer lhe viam um animal de estimação como companhia. Até o Alex quando lhe rondava a casa se sentia agitado perante a mulher, pressentia que não era bem vindo ali, ía e vinha sem demora, mal a via aparecer à porta fugia. Aquela figura austera, de cara fechada para o mundo, assustava qualquer um. Mas o animal sentia curiosidade e voltava, aproximava-se devagar e sempre sem demora. Até que um dia foi ameaçado e ficou enraivecido. O diabo da mulher parecia que deitava faíscas pela boca e pelos olhos e o pau que trazia na mão revelava as suas intenções. O cão assustado fugia mais uma vez, mas prometia voltar …
Naquela manhã, Sara acordou e estranhou a ausência do Alex, “já foi dar o passeio matinal e não esperou por mim, mas já te apanho” pensou ela, ao mesmo tempo que decidiu despachar-se para sair pelos campos. Andou por lá toda a manhã e nem sinais do Alex, “já deve estar à minha espera à porta de casa” pensou e logo desatou a correr para casa. Mas Alex ainda não tinha chegado. Nesse dia não apareceu e Sara já começava a desesperar porque tal nunca acontecera antes.
E os dias foram passando e nem sinais do cão. Sara chorava, os pais não sabiam que lhe fazer, a avó chorava com ela, gostava muito do Alex, mas mais preocupada estava com a neta por a ver tão triste e abalada.
Decidiu ir a casa da vizinha perguntar se tinha visto o cão rondar por ali. Esta abriu-lhe a porta e manteve-se encostada enquanto escutava a velhota falar por entre lágrimas. A sua postura era a de uma mulher altiva, contra o mundo, alheia aos sentimentos humanos, sempre na defensiva. “Não vi cão nenhum por aqui, aliás nunca vi” disse entre dentes mais do que uma vez, ao mesmo tempo que fitava atentamente o rosto lívido da avó de Sara.
A avó de Sara teve a sensação de que aquela frase lhe soava a mentira, dita com tanta hesitação como se tivesse acabado de ser engendrada, estando a ser proferida tantas vezes que cada vez soava mais a falso. Foi embora cabisbaixa, como se levasse o mundo às costas, entrando em casa desiludida e amargurada.
Os dias foram passando sem novidades do Alex. Sara passava os dias a procurá-lo, apoderando-se dela uma tristeza sem fim. Perdeu o apetite e acabou por adoecer. Até que um dia desmaiou e tiveram que chamar uma ambulância.
A vizinha apercebeu-se do que se passava. Começou a andar nervosa, dormia mal, o pensamento que passara parte do dia a corroer-lhe o humor, até de noite a sobressaltava, sentia-se perdida. Virava-se de um lado para o outro, enquanto a sua mente não parava de esbarrar no problema. Tinha-se tornado num monstro capaz de tudo para se vingar da sua má sorte.
No dia seguinte ao cruzar-se com a avó de Sara, perguntou o que tinha acontecido e soube que a menina estava doente, com uma fraqueza muito grande, provocada pela falta de apetite e por tanta tristeza. Não conseguia reagir por não saber do Alex. A avó também parecia ter envelhecido alguns anos. A mulher ficou sem palavras. Via pela primeira vez na vida, o caminho pelo qual seguia a sua loucura destrutiva. Os remorsos começaram a ameaçá-la sem descanso.
Certo dia acordou e pensou “quando tudo o mais falha, é hora de dizer a verdade, é a única maneira de ter descanso”, o pior mesmo era arranjar coragem para o fazer… como seria possível confessar o que tinha feito, mas tinha que remediar o mal gerado à sua volta, como tinha sido possível ter-se transformado numa pessoa tão má, ela que nem sempre fora assim. Ninguém tinha culpa dos seus desgostos, que a atiraram para aquela solidão.
Ganhou coragem, começando logo ali a castigar-se pela maldade que tinha cometido e saiu para ir a casa de Sara. Foi a avó que lhe abriu a porta. Ficou a olhar para ela como se visse um fantasma e ficou estática sem saber o que aquele olhar queria dizer. Algo entre o desespero e o medo, mas acabou por balbuciar as primeiras palavras “Tenho uma confissão a fazer“ a avó de Sara nem conseguiu responder. E ela nem conseguiu falar. As lágrimas deslizavam pelo rosto, só o silêncio e o vazio se completavam. A avó de Sara mandou-a entrar. A mulher encostou-se à janela, branca como a parede, e a velhota acenou para que se sentasse. A sua intuição dizia-lhe que algo iria ser revelado e que era melhor acalmá-la para que ela não voltasse atrás.
Os pais de Sara estavam no hospital com ela, por isso só estavam ali as duas naquela casa que repousava num silêncio sepulcral.
A mulher começou a falar e ainda num modo claro e conciso conseguiu dizer “tenho que fazer uma confissão”… depois a voz embargou-se e o resto das palavras já não soavam de um modo claro, é que, seguir em frente não era assim tão fácil. A avó de Sara apercebeu-se e tentou ser amável para lhe facilitar a confissão. E foi então que a mulher, entre lágrimas, confessou ter envenenado o cão. Estava arrependida e não sabia como remediar o que tinha feito e sobretudo como ter o perdão de Sara. A velhota estava boquiaberta, e mais revoltada ainda por sentir pena da mulher que estava lavada em lágrimas.
Foram interrompidas pelo telefone, era a mãe de Sara a dizer que estavam a caminho de casa. A mulher ficou assustada e quis ir embora, mas a velhota aconselhou a que ficasse e que fizesse a mesma confissão a toda a família. Ela não teve força para a contrariar e ali ficou, trémula de medo, mas ao mesmo tempo a pensar que o que teria de ser feito, já estava a meio, teria que ter mais um pouco de coragem, depois logo se veria.
Quando Sara entrou em casa, ainda muito debilitada, e deu de caras com a mulher, agarrou-se à avó que lhe pediu que ficasse e que ouvisse a mulher. Esta voltou a repetir “tenho uma confissão a fazer” e entre lágrimas contou o que tinha feito. Sara chorava convulsivamente e só pediu para se ir deitar. A mulher ficou prostrada sem saber se a menina alguma vez lhe iria perdoar. Mas pelo menos já tinha confessado o mal que fez e isso já era meio caminho para encontrar um pouco de paz. No entanto precisava de compensar a menina pelo desgosto que lhe causara e isso era importante para ela ultrapassar tudo isto e foi para casa a pensar como poderia fazê-lo.
Decorreram alguns dias, Sara ía melhorando, mas todos esperavam por um sorriso e isso ainda não acontecera. A mulher visitava-a de vez em quando, levava-lhe livros de histórias, mas Sara nem lhes tocava. Queria perdoar à vizinha, mas não conseguia. Sabia que o facto de ela ter confessado, talvez merecesse perdão, mas era mais forte que ela.
Porém, naquele dia de Primavera, em que o Sol já brilhava na encosta, e os passarinhos chilreavam, a vizinha bateu à porta e pediu para falar com Sara. Trazia um ar de esperança no olhar e ficou a olhar para Sara com as mãos nos bolsos. Depois perguntou a Sara, “qual é a mão que tu queres escolher? A que está no bolso direito ou no bolso esquerdo?”  A menina não sabia bem o que pensar, mas deixou-se entrar no jogo e escolheu a mão direita. Qual não foi o seu espanto quando viu a mulher tirar do bolso um cãozinho tão pequenino, tão querido, ao qual a Sara não conseguiu resistir. A mulher disse-lhe “É teu”.
Sara finalmente esboçou um sorriso e conseguiu abraçar a mulher. O rosto desta iluminou-se de esperança, esperança de ter o perdão de Sara e de poder conquistar a sua amizade. Uma esperança de poder voltar a ser a mulher de outrora, talvez que a paz devolvida por aquela confissão possa significar um recomeço na sua vida.


Maria Dias

sábado, 20 de setembro de 2014

A Confissão

Sara era uma criança alegre e com a cabeça sempre cheia de fantasias. Tinha um companheiro o Alex, um cão dócil e brincalhão, sempre pronto a acompanhá-la nas suas loucuras. Eram inseparáveis, quer nos momentos mais agitados, quer nos momentos calmos. É que Sara gostava de se sentar ao lado do Alex,  e ao mesmo tempo que lhe fazia festas, apreciava a paisagem e deixava os pensamentos fluírem. 
Às vezes, aliás a maior parte das vezes, uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos mais atentos e limpos para o espectáculo do mundo.
A Sara vivia com os pais e a avó numa robusta casa de quinta, aninhada a um canto do prado, sendo a casa mais próxima a de uma mulher de meia-idade que vivia sozinha.
A casa era uma espécie de miradouro para uma longa paisagem de montanha, abrindo verdes perante a passarada que voava irrequieta por ali.
A vista era deslumbrante e por isso Sara passava horas sentada ao lado do seu fiel amigo, apreciando aquele quadro vivo e colorido, que lhe despertava a imaginação, dando-lhe asas, e só Alex a compreendia. Respeitava o seu silêncio, parecendo também contemplar a imensidão daqueles campos.
A vizinha de Sara era uma mulher amarga, solitária. Apenas trocava algumas palavras com a avó da Sara quando se cruzavam, palavras de ocasião ou cortesia, nada mais. Todos estranhavam a solidão daquela mulher, nem sequer lhe viam um animal de estimação como companhia. Até o Alex quando lhe rondava a casa se sentia agitado perante a mulher, pressentia que não era bem vindo ali, ía e vinha sem demora, mal a via aparecer à porta fugia. Aquela figura austera, de cara fechada para o mundo, assustava qualquer um. Mas o animal sentia curiosidade e voltava, aproximava-se devagar e sempre sem demora. Até que um dia foi ameaçado e ficou enraivecido. O diabo da mulher parecia que deitava faíscas pela boca e pelos olhos e o pau que trazia na mão revelava as suas intenções. O cão assustado fugia mais uma vez, mas prometia voltar …
Naquela manhã, Sara acordou e estranhou a ausência do Alex, “já foi dar o passeio matinal e não esperou por mim, mas já te apanho” pensou ela, ao mesmo tempo que decidiu despachar-se para sair pelos campos. Andou por lá toda a manhã e nem sinais do Alex, “já deve estar à minha espera à porta de casa” pensou e logo desatou a correr para casa. Mas Alex ainda não tinha chegado. Nesse dia não apareceu e Sara já começava a desesperar porque tal nunca acontecera antes.
E os dias foram passando e nem sinais do cão. Sara chorava, os pais não sabiam que lhe fazer, a avó chorava com ela, gostava muito do Alex, mas mais preocupada estava com a neta por a ver tão triste e abalada.
Decidiu ir a casa da vizinha perguntar se tinha visto o cão rondar por ali. Esta abriu-lhe a porta e manteve-se encostada enquanto escutava a velhota falar por entre lágrimas. A sua postura era a de uma mulher altiva, contra o mundo, alheia aos sentimentos humanos, sempre na defensiva. “Não vi cão nenhum por aqui, aliás nunca vi” disse entre dentes mais do que uma vez, ao mesmo tempo que fitava atentamente o rosto lívido da avó de Sara.
A avó de Sara teve a sensação de que aquela frase lhe soava a mentira, dita com tanta hesitação como se tivesse acabado de ser engendrada, estando a ser proferida tantas vezes que cada vez soava mais a falso. Foi embora cabisbaixa, como se levasse o mundo às costas, entrando em casa desiludida e amargurada.
Os dias foram passando sem novidades do Alex. Sara passava os dias a procurá-lo, apoderando-se dela uma tristeza sem fim. Perdeu o apetite e acabou por adoecer. Até que um dia desmaiou e tiveram que chamar uma ambulância.
A vizinha apercebeu-se do que se passava. Começou a andar nervosa, dormia mal, o pensamento que passara parte do dia a corroer-lhe o humor, até de noite a sobressaltava, sentia-se perdida. Virava-se de um lado para o outro, enquanto a sua mente não parava de esbarrar no problema. Tinha-se tornado num monstro capaz de tudo para se vingar da sua má sorte.
No dia seguinte ao cruzar-se com a avó de Sara, perguntou o que tinha acontecido e soube que a menina estava doente, com uma fraqueza muito grande, provocada pela falta de apetite e por tanta tristeza. Não conseguia reagir por não saber do Alex. A avó também parecia ter envelhecido alguns anos. A mulher ficou sem palavras. Via pela primeira vez na vida, o caminho pelo qual seguia a sua loucura destrutiva. Os remorsos começaram a ameaçá-la sem descanso.
Certo dia acordou e pensou “quando tudo o mais falha, é hora de dizer a verdade, é a única maneira de ter descanso”, o pior mesmo era arranjar coragem para o fazer… como seria possível confessar o que tinha feito, mas tinha que remediar o mal gerado à sua volta, como tinha sido possível ter-se transformado numa pessoa tão má, ela que nem sempre fora assim. Ninguém tinha culpa dos seus desgostos, que a atiraram para aquela solidão.
Ganhou coragem, começando logo ali a castigar-se pela maldade que tinha cometido e saiu para ir a casa de Sara. Foi a avó que lhe abriu a porta. Ficou a olhar para ela como se visse um fantasma e ficou estática sem saber o que aquele olhar queria dizer. Algo entre o desespero e o medo, mas acabou por balbuciar as primeiras palavras “Tenho uma confissão a fazer“ a avó de Sara nem conseguiu responder. E ela nem conseguiu falar. As lágrimas deslizavam pelo rosto, só o silêncio e o vazio se completavam. A avó de Sara mandou-a entrar. A mulher encostou-se à janela, branca como a parede, e a velhota acenou para que se sentasse. A sua intuição dizia-lhe que algo iria ser revelado e que era melhor acalmá-la para que ela não voltasse atrás.
Os pais de Sara estavam no hospital com ela, por isso só estavam ali as duas naquela casa que repousava num silêncio sepulcral.
A mulher começou a falar e ainda num modo claro e conciso conseguiu dizer “tenho que fazer uma confissão”… depois a voz embargou-se e o resto das palavras já não soavam de um modo claro, é que, seguir em frente não era assim tão fácil. A avó de Sara apercebeu-se e tentou ser amável para lhe facilitar a confissão. E foi então que a mulher, entre lágrimas, confessou ter envenenado o cão. Estava arrependida e não sabia como remediar o que tinha feito e sobretudo como ter o perdão de Sara. A velhota estava boquiaberta, e mais revoltada ainda por sentir pena da mulher que estava lavada em lágrimas.
Foram interrompidas pelo telefone, era a mãe de Sara a dizer que estavam a caminho de casa. A mulher ficou assustada e quis ir embora, mas a velhota aconselhou a que ficasse e que fizesse a mesma confissão a toda a família. Ela não teve força para a contrariar e ali ficou, trémula de medo, mas ao mesmo tempo a pensar que o que teria de ser feito, já estava a meio, teria que ter mais um pouco de coragem, depois logo se veria.
Quando Sara entrou em casa, ainda muito debilitada, e deu de caras com a mulher, agarrou-se à avó que lhe pediu que ficasse e que ouvisse a mulher. Esta voltou a repetir “tenho uma confissão a fazer” e entre lágrimas contou o que tinha feito. Sara chorava convulsivamente e só pediu para se ir deitar. A mulher ficou prostrada sem saber se a menina alguma vez lhe iria perdoar. Mas pelo menos já tinha confessado o mal que fez e isso já era meio caminho para encontrar um pouco de paz. No entanto precisava de compensar a menina pelo desgosto que lhe causara e isso era importante para ela ultrapassar tudo isto e foi para casa a pensar como poderia fazê-lo.
Decorreram alguns dias, Sara ía melhorando, mas todos esperavam por um sorriso e isso ainda não acontecera. A mulher visitava-a de vez em quando, levava-lhe livros de histórias, mas Sara nem lhes tocava. Queria perdoar à vizinha, mas não conseguia. Sabia que o facto de ela ter confessado, talvez merecesse perdão, mas era mais forte que ela.
Porém, naquele dia de Primavera, em que o Sol já brilhava na encosta, e os passarinhos chilreavam, a vizinha bateu à porta e pediu para falar com Sara. Trazia um ar de esperança no olhar e ficou a olhar para Sara com as mãos nos bolsos. Depois perguntou a Sara, “qual é a mão que tu queres escolher? A que está no bolso direito ou no bolso esquerdo?”  A menina não sabia bem o que pensar, mas deixou-se entrar no jogo e escolheu a mão direita. Qual não foi o seu espanto quando viu a mulher tirar do bolso um cãozinho tão pequenino, tão querido, ao qual a Sara não conseguiu resistir. A mulher disse-lhe “É teu”.

Sara finalmente esboçou um sorriso e conseguiu abraçar a mulher. O rosto desta iluminou-se de esperança, esperança de ter o perdão de Sara e de poder conquistar a sua amizade. Uma esperança de poder voltar a ser a mulher de outrora, talvez que a paz devolvida por aquela confissão possa significar um recomeço na sua vida.

Maria Dias

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Fazer anos….

O tempo passa sem dó, nem piedade,
O espelho denuncia as marcas do tempo,
Da frescura da juventude, fica a saudade,
Mas, festejar a vida, é um encantamento.

Na quietude que o momento consente,
Aqui estou para mais um ano desejar
Saúde, felicidade para o futuro, e presente
Tchim, tchim…, à vida quero brindar!



Maria Dias

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O CANTINHO DA POESIA, PENSAMENTOS,  CONTOS E OUTROS…..

Setembro, o mês em que nasci, por isso o meu mês.
Nos meus tempos de juventude ainda era um mês de férias. Actualmente, é por excelência um mês de transição, das férias para a labuta dos dias de escola e trabalho, os dias a ficarem mais pequenos e o Outono quase à porta.

Estamos de volta à Academia Sénior, à Arpic, reencontros, de volta ao convívio. Com muito pena minha, não estive presente nas actividades de final do ano, dado que a minha mãe foi hospitalizada em Junho. Foram momentos difíceis de gerir e agora que mais uma estrela brilha no céu, fica a saudade que será eterna.

Tinha feito este poema em 2012, agora só o concebo acrescentando:

A Morte

Ela chega de mansinho
Sempre sem avisar,
Vem devagarinho
Para todos surpreender,
E se chega devagar,
Vai embora a correr.

Vai, e leva com ela
Alguém que nos é querido,
É uma dor singela
Tão forte, amor sofrido,
O desejo de não ser verdade,
De esquecer aquele momento,
O querer fugir à realidade
E acabar com tal sofrimento.

Tínhamos esquecido
De que temos de morrer
E quando o homem
Fala da eternidade
É como um cego
Que não quer ver,
Mas a morte é natural
E não tem rival…

2012

Ah mas não sei se é para a dor amenizar
Ou talvez na esperança de ainda te abraçar
Que na Eternidade quero acreditar!

16.08.20014

         

Maria Dias